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Avanço de lideranças nacionalistas reflete não apenas mudanças eleitorais, mas a difusão global de práticas iliberais que desafiam os fundamentos da ordem democrática


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O crescimento da extrema direita no cenário internacional tem se consolidado como expressão de uma crise estrutural das democracias liberais e da expansão do iliberalismo, fenômeno evidenciado pela ascensão de lideranças como Donald Trump e Jair Bolsonaro, em um contexto de desigualdade econômica, insegurança social e erosão institucional.

Longe de se limitar a resultados eleitorais pontuais, o crescimento da extrema direita expressa transformações mais profundas nas bases econômicas, sociais e políticas das democracias contemporâneas. Após o impacto simbólico da Queda do Muro de Berlim, consolidou-se a ideia de que o modelo liberal-democrático representaria o ponto de chegada da organização política global. No entanto, o que se observa nas últimas décadas é que essa estabilidade era menos sólida do que parecia.

Nesse cenário, o avanço da extrema direita também pode ser lido como parte de um processo mais amplo de difusão do iliberalismo. Como aponta Yascha Mounk, em O Povo Contra a Democracia, há uma dissociação crescente entre democracia e liberalismo: governos continuam sendo eleitos, mas passam a tensionar instituições, restringir direitos e relativizar normas democráticas — movimento que caracteriza as chamadas democracias iliberais.

A emergência de lideranças com discursos nacionalistas e antiestablishment não ocorre por acaso. Ela se ancora em um sentimento difuso de insegurança — econômica, cultural e identitária — intensificado por fenômenos como globalização, automação e o enfraquecimento de políticas de bem-estar social. Do ponto de vista econômico, relatórios do Fundo Monetário Internacional e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico mostram que, mesmo em períodos de crescimento, os ganhos foram distribuídos de forma desigual, alimentando frustrações e percepções de perda.

No plano político, há sinais claros de desgaste institucional. A confiança em parlamentos, sistemas judiciais e na própria imprensa vem diminuindo em diferentes países. Esse processo é potencializado pelas plataformas digitais, que tendem a favorecer narrativas mais simplificadas, polarizadas e emocionalmente carregadas — um ambiente especialmente favorável à mobilização baseada em medo e ressentimento.

Ao mesmo tempo, esse avanço também revela limites do campo progressista. Em diversos contextos, governos identificados com a centro-esquerda adotaram agendas econômicas próximas ao neoliberalismo, o que acabou produzindo distanciamento de suas bases sociais tradicionais. Esse vazio político, em muitos casos, foi ocupado por discursos mais radicais.

No plano geopolítico, os efeitos já são visíveis. O fortalecimento de agendas nacionalistas e iliberais tem contribuído para o enfraquecimento de instituições multilaterais, como a Organização das Nações Unidas, além de dificultar consensos em temas centrais, como mudanças climáticas, migração e segurança internacional.

Diante disso, a questão central talvez não seja apenas explicar o crescimento da extrema direita, mas entender por que ela encontra terreno tão fértil para se expandir. A ideia de que “o sistema está falhando” deixa de ser apenas uma provocação e passa a refletir um diagnóstico sustentado por evidências. O que está em jogo, no limite, não é apenas a alternância de poder, mas a capacidade das democracias de responder às demandas de sociedades cada vez mais desiguais, complexas e interdependentes.

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