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Declarações explícitas de uso da força, operações militares sem aval do Congresso e a maior concentração de meios navais dos Estados Unidos neste século colocam o Caribe e a América Latina no centro da estratégia de Donald Trump.

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Quem acompanhou a resposta dada por Donald Trump a um jornalista na Casa Branca dificilmente deixou de se surpreender. Questionado sobre o fato de anunciar uma ofensiva contra cartéis de drogas sem recorrer a uma declaração formal de guerra aprovada pelo Congresso, Trump descartou essa necessidade e indicou que sua estratégia se basearia no uso direto da força letal contra aqueles que considera responsáveis pelo tráfico para os Estados Unidos, conforme registro do MeidasTouch em outubro de 2025.

Essa lógica foi reafirmada durante sua viagem à Ásia. Em visita ao porta-aviões USS George Washington, ancorado na base naval de Yokosuka, no Japão, Trump discursou para militares norte-americanos defendendo o abandono de qualquer contenção diplomática em nome da vitória absoluta. Segundo ele, em caso de conflito, os Estados Unidos não hesitariam em empregar seu poder naval para destruir completamente países adversários, se assim julgassem necessário.

No plano internacional, o governo Trump segue envolvido em múltiplas frentes de tensão: a continuidade da guerra na Ucrânia, os reiterados episódios de violência em Gaza mesmo após anúncios de cessar-fogo por Israel — episódios que não parecem ocupar lugar central em suas preocupações — e, sobretudo, o avanço da China como ator global. Ainda assim, Trump e seu recém-empossado Secretário da Guerra deslocam o foco estratégico para uma vasta área que vai do Caribe ao Pacífico, sustentando a ideia de ampliar o teatro de operações militares para diversas regiões simultaneamente.

Na prática imediata, essa política tem se materializado em ações militares contra embarcações suspeitas de narcotráfico. Até o momento, treze barcos foram destruídos, resultando na morte de 57 pessoas. O senador republicano Rand Paul chamou atenção para o fato de que tais operações ocorreram sem comunicação prévia ao Congresso e sem apresentação pública de provas, identificação dos alvos ou esclarecimento sobre eventual ameaça armada, o que levanta fortes indícios de execuções fora do marco legal, como destacou o TuProfedeRI em outubro de 2025.

Diante disso, permanece a pergunta central: quais são os limites dessa escalada militar promovida pelo governo Trump, que já mobiliza uma quantidade inédita de navios de guerra, porta-aviões e efetivos — a maior concentração deste tipo no século XXI? Em que medida o envio do maior porta-aviões norte-americano, o Gerald Ford, ao Caribe pode ser justificado como estratégia de combate ao narcotráfico sem parecer excessivo ou mesmo incoerente? E, sobretudo, como a instabilidade gerada na América Latina e no Caribe poderia servir ao projeto político do “Make America Great Again”?

A presença ostensiva de forças militares nas proximidades do Caribe sugere a busca por um pretexto operacional, frequentemente associado à atuação da CIA, agora autorizada por Trump a realizar operações encobertas na Venezuela. Trata-se de uma autorização que, na prática, apenas formaliza práticas historicamente recorrentes: desestabilização de governos eleitos, campanhas de desinformação e intervenções diretas ou indiretas contra lideranças políticas e sociais.

Nesse contexto, bastaria um incidente — possivelmente envolvendo Trinidad e Tobago, já que Colômbia, Brasil e México não demonstram alinhamento com essa estratégia — para viabilizar uma intervenção direta na Venezuela. A hipótese de uma ação de “falsa bandeira”, recurso já amplamente utilizado em outras conjunturas, não pode ser descartada. O senador ultraconservador Lindsey Graham, inclusive, passou a mencionar a Colômbia como parte desse cenário, sem maiores justificativas.

Em entrevista ao Democracy Now, o ex-chanceler do Equador durante o governo Rafael Correa, Guillaume Lelong, criticou duramente a situação ao afirmar que o que se vê no Caribe é um espetáculo trágico que custa vidas humanas. Para ele, trata-se de assassinatos em alto-mar, cometidos fora de qualquer contexto formal de guerra, o que os torna ilegais e moralmente indefensáveis.

Lelong também avalia que Trump transferiu a condução da política hemisférica a Marco Rubio, fortalecendo o chamado lobby republicano da Flórida, conhecido por suas posições extremistas e beligerantes em relação à América Latina. Tradicionalmente hostil a Cuba, esse grupo passou a tratar a Venezuela como principal alvo, mas mantém oposição sistemática a qualquer governo de esquerda na região. Segundo o ex-chanceler, uma guerra teria efeitos devastadores: se as sanções econômicas já provocaram o deslocamento de cerca de sete milhões de venezuelanos, um conflito armado geraria uma crise humanitária de proporções ainda maiores, atingindo diretamente a Colômbia, outros países latino-americanos, o Caribe e os próprios Estados Unidos.

No caso colombiano, a irritação de Trump é particularmente significativa. Como observa Lelong, a Colômbia foi, durante três décadas, o principal aliado dos Estados Unidos em matéria de segurança na América do Sul. Embora não seja o maior parceiro comercial — posição ocupada pelo México —, o país manteve uma cooperação estratégica profunda, incluindo acesso a informações de inteligência e equipamentos militares raramente concedidos a outros governos da região.

A hostilidade atual contra o presidente Gustavo Petro, portanto, tem uma explicação histórica clara: pela primeira vez, a Colômbia é governada por um presidente que questiona abertamente essas estruturas de dependência e as lógicas hegemônicas impostas por Washington.

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