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Uma campanha publicitária banal foi suficiente para acionar teorias conspiratórias, boicotes e reações histéricas, revelando como a polarização transformou metáforas simples em ameaças ideológicas — exatamente como na sátira Não Olhe Para Cima.

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No último fim de semana, um comercial da Havaianas protagonizado pela atriz Fernanda Torres tornou-se um dos assuntos mais comentados nas redes sociais — não por sua criatividade publicitária, mas pela reação política desproporcional que despertou. A campanha de fim de ano, que sugeria em tom leve que 2026 não deveria começar “com o pé direito”, mas “com os dois pés”, foi interpretada por setores da extrema direita como um ataque ideológico, evidenciando um traço cada vez mais comum da polarização brasileira: a incapacidade de lidar com metáforas fora da lógica da guerra cultural. https://www.youtube.com/live/-1pABzw8RDY

A peça publicitária utilizava um ditado popular de forma simbólica para falar de atitude, engajamento e compromisso com o futuro. Ainda assim, o que deveria ser apenas mais uma ação de marketing acabou se tornando alvo de críticas de políticos e militantes da extrema direita, que reagiram como se a frase carregasse um manifesto político explícito. Deputados, como Eduardo Bolsonaro, recorreram às redes sociais para descartar simbolicamente pares de Havaianas, classificar a campanha como um “ataque” e convocar boicotes à marca.

O episódio é exemplar do que pode ser definido como burrice ideológica: a leitura automática e conspiratória da realidade, na qual qualquer mensagem simbólica é enquadrada como “pró-esquerda” ou “pró-direita”. Um recurso linguístico simples e amplamente difundido na cultura popular foi convertido em prova de alinhamento político inexistente, gerando acusações, boicotes e atos de violência simbólica contra um produto que, em sua origem, não fazia qualquer menção a partidos, governos ou disputas eleitorais.

A extrema direita e a politização de tudo

A reação ao comercial das Havaianas revela padrões recorrentes na atuação da extrema direita contemporânea. Entre eles, destacam-se a interpretação automática de qualquer discurso como ataque ideológico; a conversão de símbolos culturais amplos — como uma marca popular — em inimigos políticos; a convocação de boicotes como forma de militância identitária; e a substituição do debate racional por performances midiáticas, nas quais o espetáculo se sobrepõe à análise.

A burrice ideológica, nesse caso, não reside na discordância — elemento legítimo e saudável em sociedades democráticas —, mas na incapacidade de diferenciar crítica fundamentada de projeções delirantes que atribuem intenções políticas inexistentes a conteúdos banais. O resultado é o empobrecimento do debate público e a erosão de qualquer possibilidade de diálogo.

Paralelos com Não Olhe Para Cima: a sátira que virou espelho

O filme Não Olhe Para Cima (Don’t Look Up, 2021), dirigido por Adam McKay, oferece uma lente precisa para compreender esse fenômeno. Na sátira, dois cientistas tentam alertar a sociedade sobre um cometa que ameaça destruir a Terra, mas encontram um ambiente dominado pela polarização, pelo negacionismo e pela incapacidade de tratar fatos fora da lógica partidária.

O longa escancara como a polarização transforma evidências em opiniões, como a desinformação prospera quando tudo vira jogo ideológico e como a recusa em dialogar racionalmente sobre riscos concretos pode levar a consequências catastróficas. No caso do comercial das Havaianas, o “cometa” não era literal, mas simbólico: a reação exagerada a uma metáfora publicitária simples.

A resposta da extrema direita repete o roteiro do filme — rejeitar qualquer narrativa que não se encaixe em crenças prévias, substituindo análise crítica por indignação performática. Enquanto, na ficção, essa postura conduz à destruição do planeta, na realidade ela corrói o tecido democrático, transformando consumo, linguagem e cultura popular em campos de batalha permanentes.

Conclusão: a cultura do “não olhe para cima” já está entre nós

O caso das Havaianas vai além de uma polêmica passageira ou de mais uma disputa nas redes sociais. Ele é sintoma de um ambiente político e cultural em que a burrice ideológica converte interpretações literais em guerras culturais e onde a obsessão por identificar inimigos em tudo inviabiliza o debate público minimamente racional.

O problema não está em criticar empresas, campanhas ou discursos, mas no momento em que qualquer expressão — até um ditado popular em um comercial de chinelos — passa a ser tratada como ameaça existencial. No fim, tanto no cinema quanto na vida real, o que está em jogo é a capacidade de olhar além das próprias projeções, reconhecer o óbvio e discutir o mundo com menos paranoia e mais racionalidade — algo que, infelizmente, tem se tornado cada vez mais raro.

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