Em carta divulgada em mais de 20 países, o presidente critica o unilateralismo das grandes potências. Ele defende a refundação do multilateralismo para enfrentar guerras, desigualdade e a crise climática.
Quem teve acesso ao artigo que o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, publicou em mais de 20 países encontrou um alerta claro sobre o cenário internacional contemporâneo. No texto, Lula afirma que 2025, ano em que a Organização das Nações Unidas (ONU) completou 80 anos, expôs de forma inequívoca a crise da ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial. O presidente critica o unilateralismo das grandes potências e defende a reforma do multilateralismo como resposta aos conflitos armados, à desigualdade global e à crise climática.
Ao longo do artigo, Lula sustenta que a ONU, criada em 1945 para evitar novas guerras globais, enfrenta atualmente perda de credibilidade e limitações políticas que reduzem sua capacidade de resposta diante de conflitos recentes. Segundo o presidente, a paralisia das instituições internacionais tem enfraquecido o papel do multilateralismo como instrumento de mediação, prevenção de crises e promoção da paz.
Para Lula, abandonar o multilateralismo seria um erro estratégico. Ele argumenta que a interdependência global torna inviáveis soluções baseadas exclusivamente em interesses nacionais e que a fragmentação do sistema internacional tende a ampliar instabilidades políticas, econômicas e ambientais.
O texto denuncia ainda a banalização do uso da força por potências globais e a aplicação seletiva do direito internacional. Intervenções no Iraque, Afeganistão e Líbia, a guerra na Ucrânia e a crise humanitária em Gaza são citadas como exemplos do enfraquecimento das normas internacionais. Nesse contexto, o Conselho de Segurança da ONU é apontado como limitado por disputas políticas e pelo poder de veto.
Na esfera econômica, o artigo destaca o avanço do unilateralismo comercial, com guerras tarifárias que desorganizam cadeias globais de produção e pressionam a inflação mundial. A Organização Mundial do Comércio (OMC) é mencionada como uma das instituições mais afetadas, com sua agenda de desenvolvimento paralisada desde o fracasso da Rodada de Doha.
O documento também retoma a crise financeira de 2008 como evidência do fracasso da globalização neoliberal. Segundo Lula, “Nos últimos 10 anos, os US$ 33,9 trilhões acumulados pelo 1% mais rico do planeta são equivalentes a 22 vezes os recursos necessários para erradicar a pobreza no mundo“.
O enfraquecimento do Estado é apontado como um dos fatores que contribuíram para o descrédito das instituições democráticas e para o avanço de narrativas extremistas. De acordo com o artigo, a combinação entre austeridade fiscal, desigualdade social e frustração econômica criou um ambiente favorável à radicalização política.
No campo do desenvolvimento, Lula critica o recuo da cooperação internacional e as dificuldades para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030. O texto menciona a insuficiência de recursos, os custos elevados e as exigências que desconsideram realidades locais. Observa a desigualdade global é tratada como resultado histórico de séculos de exploração e ingerência sobre países da América Latina, da África e da Ásia. Para o presidente, combater a pobreza extrema não é um ato de caridade, mas uma exigência de justiça histórica, especialmente em um mundo cujo Produto Interno Bruto global supera US$ 100 trilhões.
A crise climática ocupa posição central no artigo. Lula afirma que os países ricos são os maiores responsáveis históricos pelas emissões de carbono, enquanto os mais pobres sofrem os impactos mais severos do aquecimento global. O texto critica o não cumprimento das promessas de financiamento climático feitas desde a COP15 de Copenhague e a substituição de metas obrigatórias por compromissos voluntários.
Apesar das críticas, o artigo reconhece conquistas do sistema multilateral, como a erradicação da varíola, a proteção da camada de ozônio e os avanços nos direitos trabalhistas. Para Lula, esses resultados demonstram que a cooperação internacional produz benefícios concretos para a vida das populações.
O texto rejeita a ideia de “desglobalização” e afirma que crises como pandemias, mudanças climáticas e instabilidade econômica ultrapassam fronteiras nacionais. Segundo o presidente, não é possível construir ilhas de prosperidade em um mundo marcado por desigualdade e conflitos.
Ao final, Lula sustenta que a aparente ineficácia das organizações internacionais decorre de estruturas que já não refletem a realidade geopolítica do século XXI. Ele destaca a atuação do Brasil em fóruns como o G20, o BRICS e na preparação da COP30 como exemplo de compromisso com a cooperação internacional.
O artigo conclui com um apelo à diplomacia e à reforma do multilateralismo. Para o presidente, insistir na cooperação internacional não é uma opção ideológica, mas uma necessidade histórica para conter a escalada das guerras, reduzir desigualdades e enfrentar a crise ambiental global.

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