Sem Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema, debate da Band expôs os limites de um formato que corre o risco de transformar a ausência dos favoritos em estratégia e deixar o eleitor sem o confronto que deveria orientar a escolha presidencial.
O primeiro debate presidencial promovido pela Band, que deveria marcar o início dos grandes confrontos da eleição de 2026, terminou produzindo uma situação incomum: os candidatos mais importantes da disputa não estavam no palco, mas dominaram boa parte da discussão. A ausência de Luiz Inácio Lula da Silva, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema alterou a natureza do encontro e deixou uma pergunta incômoda no ar: de que serve um grande debate se aqueles que concentram as maiores expectativas eleitorais podem simplesmente decidir não comparecer?

Há uma imagem capaz de resumir o episódio: a de Ícaro. Na mitologia grega, ele recebe asas para voar, mas, levado pela ambição, aproxima-se demais do Sol. A cera que sustentava suas asas derrete e a queda se torna inevitável.
Apesar das ausências, Lula e Flávio Bolsonaro foram os protagonistas do evento. (Imagem criada por IA)
Guardadas todas as proporções, a metáfora ajuda a compreender o que ocorreu com a Band. A emissora preparou o palco, mobilizou sua estrutura, construiu expectativa e apresentou o evento como um dos primeiros grandes momentos da corrida presidencial. As condições para o voo estavam dadas. Faltaram, porém, alguns dos passageiros mais importantes.
O problema não é apenas contabilizar quem faltou. A questão central é que a ausência dos favoritos mudou completamente a lógica do debate. Em vez de um confronto direto entre os principais projetos de poder que disputam o país, o público assistiu a candidatos presentes discutindo, atacando e respondendo a personagens que não estavam ali. Lula não ocupava uma tribuna, mas era tema de ataques e críticas. O mesmo ocorreu com Flávio Bolsonaro. Os ausentes, de certo modo, ocuparam mais espaço político do que seria razoável para quem decidiu não participar.
É aí que aparece a principal fragilidade do episódio. Um debate presidencial tem valor porque permite comparação. O eleitor observa candidatos submetidos às mesmas perguntas, confrontados por adversários e obrigados a defender suas posições diante de críticas. Compara propostas, capacidade de argumentação, preparo, liderança e, sobretudo, a reação de cada um quando é colocado sob pressão. Quando os principais concorrentes não dividem o mesmo palco, essa possibilidade fica inevitavelmente comprometida.
A Band, é verdade, tentou aumentar as chances de reunir os nomes mais relevantes. A alteração da data do debate, segundo a lógica que cercou a organização do evento, buscava ampliar a possibilidade de participação de Lula. A iniciativa é compreensível do ponto de vista jornalístico e comercial: uma emissora naturalmente deseja reunir aqueles que despertam maior interesse do público. O resultado, no entanto, produziu uma ironia difícil de ignorar. Depois de todo o esforço, o debate ocorreu sem Lula, sem Flávio Bolsonaro e sem Zema.
Isso deveria provocar uma reflexão sobre os limites da negociação entre emissoras e campanhas. Existe uma diferença entre organizar um evento competitivo e adaptar toda a arquitetura de um debate para acomodar a estratégia de determinados candidatos. Nenhum nome, por mais forte que seja nas pesquisas ou por maior que seja sua influência política, deveria ser maior que o debate. Quando a presença de uma ou duas figuras passa a determinar a relevância de todo o encontro, cria-se um precedente perigoso: o candidato descobre que sua ausência pode ser uma forma de controlar o próprio debate.
Essa estratégia tem vantagens evidentes. Quem não comparece evita perguntas incômodas, reduz o risco de cometer erros e escapa do confronto direto com adversários. Pode parecer, portanto, uma vitória tática. Mas há também um custo. A cadeira vazia não permanece silenciosa. Quando o candidato falta, abre espaço para que os adversários falem por ele, interpretem suas posições e construam narrativas sem a possibilidade de uma resposta imediata. A ausência protege, mas também expõe.
Os candidatos que compareceram, por sua vez, ganharam algo que dificilmente teriam em um debate com todos os favoritos presentes: mais tempo de televisão e maior visibilidade. Para nomes menos conhecidos nacionalmente, essa oportunidade pode ter valor considerável. Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury, por exemplo, encontraram um espaço de exposição que seria muito mais disputado caso o palco estivesse ocupado pelos principais polos da corrida. Nesse sentido, um evento inicialmente visto como esvaziado também funcionou como vitrine.
Há ainda uma dimensão que não deveria passar despercebida: a ausência de mulheres no palco. O problema não se resolve simplesmente com a defesa da inclusão deste ou daquele nome. A questão é mais ampla e diz respeito aos critérios utilizados para definir quem participa de um debate presidencial. Se a eleição pretende apresentar ao eleitor a maior diversidade possível de projetos políticos, a composição do palco precisa ser capaz de refletir, dentro das regras eleitorais, uma pluralidade compatível com a dimensão e a complexidade do país.
No fundo, o debate não pertence à emissora, embora seja ela quem o organize. Também não pertence aos partidos ou aos candidatos. O destinatário final do debate é o eleitor. É ele quem deveria sair da transmissão com mais informações para comparar os postulantes ao cargo mais importante da República. Quando cálculos de campanha, recusas estratégicas e negociações de bastidores se sobrepõem a esse objetivo, o principal prejudicado é justamente quem deveria estar no centro de todo o processo.
Estratégia x tática: democracia em xeque
Durante o debate, ocorreram ainda duas situações bastante inusitadas. Pablo Marçal, impedido de participar por determinação judicial, realizou uma live para questionar a decisão, criticar o sistema e reivindicar o direito de participar tanto do debate quanto da própria campanha eleitoral.
Por sua vez, Lula concedeu uma entrevista à Record no mesmo horário do debate, em uma estratégia que remete à adotada por Jair Bolsonaro em 2018: oferecer ao público uma programação alternativa capaz de disputar — e, consequentemente, reduzir — a audiência do confronto televisivo.
Por isso, seria simplista atribuir o fracasso exclusivamente à Band. A emissora pode ter superestimado sua capacidade de reunir os protagonistas e pode ter apostado alto demais na força do evento. Mas os candidatos que decidiram não comparecer também precisam assumir sua parcela de responsabilidade. Quem pretende governar o Brasil não pode transformar permanentemente o confronto público em um risco a ser evitado. Uma campanha presidencial exige exposição ao contraditório. Exige respostas. Exige disposição para ouvir críticas e defender posições quando não se controla o ambiente.
A democracia não precisa de candidatos confortáveis. Precisa de candidatos capazes de enfrentar o desconforto. E talvez essa seja a principal lição deixada pelo primeiro debate. Não basta montar um palco tecnicamente impecável, investir em audiência e produzir um grande espetáculo televisivo. Sem confronto real, o cenário pode permanecer de pé, as luzes podem continuar acesas e as câmeras podem estar funcionando perfeitamente — ainda assim, algo essencial estará faltando.
A metáfora de Ícaro retorna justamente nesse ponto. O problema não foi construir asas. O problema foi imaginar que a grandiosidade do voo, por si só, garantiria o sucesso da viagem. Um debate presidencial não pode depender exclusivamente da vontade de dois ou três candidatos para justificar sua existência. Se esse modelo se consolidar, as campanhas aprenderão rapidamente uma lição perigosa: faltar também pode ser uma forma de dominar a agenda.
E isso seria ruim para a democracia. Porque, no fim da noite, talvez seja impossível apontar um único vencedor. Os candidatos presentes ganharam visibilidade. Os ausentes evitaram o confronto direto, mas continuaram no centro da discussão. A Band preservou o palco, mas não conseguiu reunir todos os personagens que prometiam dar ao encontro sua densidade política.
Quem certamente saiu perdendo foi o eleitor.
O próximo debate, portanto, precisará responder a uma questão que este deixou em aberto: quem realmente está disposto a se expor diante do país? Menos espetáculo, menos cálculo e menos estratégia de fuga talvez sejam necessários para que o debate volte a cumprir sua função.
O eleitor não precisa assistir a mais uma disputa entre cadeiras vazias. Precisa comparar candidatos de verdade. E precisa saber, antes de escolher quem vai governar o Brasil, quem está disposto a enfrentar o calor quando as luzes do palco se acendem.

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