Copa 2026: O Cabo de guerra e a Festa da Hipocrisia
Na maior festa do futebol, o carimbo no passaporte pesa mais que o gol. Enquanto o coração quer torcer, o mundo insiste em revistar, negar e classificar. Uma crônica sobre a hipocrisia do ocidente, a solidão do jogador e o cheiro do preconceito que insiste em pairar sobre o gramado.
Uma bela aula de política, como diz Susana Botar durante sua fala no DCM da última terça-feira.
Na última segunda-feira, o Irã, após o empate por 2 a 2 contra a Nova Zelândia em seu jogo de estreia na Copa do Mundo, teve o capitão da equipe, Mehdi Taremi, e o auxiliar técnico Saide Alhouei retidos, sem poder embarcar com o restante da delegação, conforme informações do site Banda B.
“Não há motivos para esse tipo de prática, é pura cretinice… São jogadores profissionais, atletas, e não há razão para tratamento discriminatório… (…) É uma atitude antidiscriminatória, antiesportiva, e o Irã está num momento de assinatura de acordo… (…) É injusta por si só… É para desestabilizar os jogadores na Copa…”, enfatiza Susana Botar no DCM desta terça-feira, 16/06.
Ao mesmo tempo em que há uma multiplicidade de países representados, jogos diversos e algumas estreias marcadas por muita luta, também existem impedimentos. Cães farejadores revistando bagagens dos jogadores uruguaios, jornalistas submetidos a revistas humilhantes — caso de Karine Alves, que passou por uma abordagem constrangedora da polícia migratória nos Estados Unidos.
E como fica o defensor da liberdade de expressão? Como responder àquele que vem com o argumento: “Ah, mas as big techs vão dominar o mundo, então para que leis?”. Vindo da boca de uma jovem evangélica, esse absurdo chama atenção. Opa, vamos contar até dez e refletir um pouco sobre esse absurdo vivenciado em apenas 25 anos deste jovem e estranho século.
Desse modo, é necessário voltar os olhos para a literatura, especialmente para Albert Camus, em “O Estrangeiro”. Na segunda parte do livro, o fio condutor da narrativa acompanha a prisão do protagonista e as inúmeras vezes em que ele é interrogado. Trata-se, sobretudo, de interrogatórios de identificação, nos quais se perguntam nome, endereço, profissão e local de nascimento.
Já James Hillman, em “O Código do Ser”, aborda a necessidade de coragem para aceitar a coleira apertada. Por mais que os indivíduos ignorem aquilo que os perturba, a mente é a última faculdade a ceder, num verdadeiro cabo de guerra entre o chamado do coração e os planos da razão.
Assim, é a Copa do Mundo de 2026. Sim, um cabo de guerra entre o chamado do coração — torcer, festejar, comprar ingredientes para preparar petiscos e receber os amigos — e o plano da mente: estar diante da hipocrisia do Ocidente, do duplo padrão seletivo que classifica negros, latinos e árabes como suspeitos ou terroristas.
Ao trazer a compreensão de Byung-Chul Han em “Capitalismo e Impulso de Morte: Ensaios e Entrevistas”, percebe-se que a globalização elimina violentamente as diferenças com o objetivo de acelerar a comunicação e a circulação de capital. Nesse sentido, a extrema direita se aproveita desse cenário, vende a ideia da saudade, alimenta o medo e cria a “couraça do caráter”, como afirma Wilhelm Reich em “Análise do Caráter”.
A colonização, juntamente com a extrema direita, iguala tudo, reduz tudo ao mesmo nível e monetiza o mundo. Para Byung-Chul Han, a singularidade do outro perturba o contexto global imposto à mente das pessoas. A supremacia desse contexto global reage por meio do nacionalismo, do regionalismo e do provincialismo.
Enquanto isso, permanece a solidão do jogador que deixa sua casa e sua família para atuar em um país desconhecido e ser tratado como um “pacote” suspeito. É o jogador uruguaio que, em vez de carregar apenas o perfume da esposa, o suor da camisa e o odor do cachorro, vê-se submetido a uma revista humilhante pela polícia migratória.
Sim, a Copa continua. No entanto, ela também reúne o cheiro do preconceito e da xenofobia ou, para Byung-Chul Han, do conformismo — fenômeno que, ao mesmo tempo em que exige uma autenticidade vazia, promove a supressão da “estrangeiridade”, vista como obstáculo à circulação de capital e informação.
É a maior festa da Terra, mas com nítidos sinais de hipocrisia.

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