O momento exige cuidado. Falar de predadores exógenos é acender a luz amarela para não escorregar em cascas de banana
É complexa a análise dos predadores exógenos na democracia brasileira. Essa terminologia foi mencionada pelo jurista Lenio Streck durante entrevista ao canal “Ágora da Geopolítica”, transmitida no dia 30 de abril. Ao pesquisar minuciosamente e realizar um recorte voltado à imprensa brasileira, observa-se que se trata de um termo cunhado pela organização Repórteres sem Fronteiras para descrever ataques à imprensa praticados por atores políticos e empresariais.
Primeiramente, é preciso notar a relação tóxica entre populismo e imprensa. Líderes populistas costumam manter uma relação hostil com a imprensa independente. Essa atitude frequentemente começa com tentativas de censura disfarçadas de demandas judiciais — registro, inclusive, que essa formulação não é minha, mas uma sugestão da professora Cláudia Costa, docente de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Essa prática, adotada por representantes políticos, constitui uma ameaça à liberdade de imprensa e à própria democracia. Nesse sentido, os populistas, por meio da judicialização desenfreada, acabam minando a autoridade jornalística.
Por outro lado, empresas jornalísticas também podem se beneficiar dessa dinâmica, especialmente por meio da convergência entre interesses editoriais e objetivos comerciais, favorecendo líderes populistas em troca de anúncios, coberturas privilegiadas de inaugurações, festas e outras vantagens oferecidas tanto a jornalistas quanto a proprietários de veículos de comunicação.
Também é necessário mencionar o processo de deslegitimação sistemática da imprensa. O Governo de Jair Bolsonaro foi um exemplo significativo de “ameaça exógena” à imprensa ao utilizar retóricas de ataque marcadas por insultos, humilhações e ameaças, além de inúmeras críticas aos veículos jornalísticos e do aumento de ataques documentados contra organizações de imprensa.
No entanto, também é preciso destacar os inúmeros casos de assédio, ataques físicos e ameaças contra jornalistas durante o referido governo. Ainda assim, deve-se apontar que houve, em determinados momentos, certa cumplicidade de setores da imprensa no processo de ascensão eleitoral do ex-presidente, fenômeno que alguns analistas identificam novamente na atual conjuntura, especialmente por meio da amplificação de narrativas de desgaste político do Governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Por esse motivo, é necessário que os leitores permaneçam atentos, especialmente para não “escorregarem nas cascas de banana” deixadas pela imprensa, seja ela comercial, tradicional ou alternativa. Não cabe mais um papel ambivalente da imprensa, tampouco o chamado jornalismo declaratório, que consiste em reproduzir falas inflamadas de extremistas e representantes políticos sem o devido contexto crítico.
Assim, torna-se necessária atenção máxima às práticas amplificativas e também ao uso estratégico de ataques institucionais para autopromoção política e construção de uma falsa sensação de cumprimento de dever democrático. Por isso, é importante manter um olhar crítico diante de apelos meramente mercadológicos associados à ideia de “defesa da democracia”.
Para finalizar, uma das principais consequências da descredibilização do jornalismo é a erosão da confiança pública, agravada pela difusão de notícias falsas e de narrativas negacionistas. Diante disso, é fundamental atentar para discursos normalizadores reproduzidos pela imprensa e para o consequente aumento da desconfiança nas instituições.

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