Como as redes sociais e o dogmatismo político transformam o debate público em uma rádio da ilusão e da besteira
A recente mobilização de vigílias religiosas dedicadas ao ministro André Mendonça e os episódios de “exorcismo evangélico” direcionados ao ministro Alexandre de Moraes não são meros subprodutos do folclore político nacional. Sob a lente conceitual de Gilles Deleuze, em sua obra-prima “Diferença e Repetição” (1968), esses fenômenos ilustram o colapso da racionalidade operado pela imagem dogmática do pensamento.
No terceiro capítulo da obra, “A Imagem do Pensamento”, Deleuze denuncia que a filosofia tradicional sempre pressupôs uma afinidade natural entre o espírito e a verdade. Nesse modelo ortodoxo, o erro é tratado como um simples desvio técnico e honesto.
O sujeito quer a verdade, mas se confunde no caminho. Isso ocorre devido à transcendência de um suposto senso comum sobre as sensações. É a ilusão de uma alma que força todas as faculdades humanas — a memória, a imaginação, a razão — a colaborarem na forma do “Mesmo”, mantendo certezas preestabelecidas.
A encenação das vigílias e dos exorcismos funciona como uma perfeita demonstração por absurdo desses postulados. O pensamento dogmático só consegue operar dentro do eixo binário do Bem absoluto contra o Mal absoluto.
No entanto, a grande virada teórica que Deleuze nos oferece em 1968 é a diferenciação entre o erro e a besteira (bêtise). O erro é um falso reconhecimento que ainda respeita as regras do jogo racional. Já a besteira é uma estrutura muito mais profunda e assustadora.
Para Deleuze, ela não é carência de inteligência. A besteira é a incapacidade de distinguir o importante do secundário. É a produção obsessiva de pseudoproblemas e a adesão cega a respostas simplistas para questões mal colocadas. A imprensa comercial brasileira fracassa ao reduzir a besteira, a maldade e a loucura a meros fatos de uma causalidade externa, como se o fanatismo fosse um vírus exógeno. Ignora-se a lição deleuziana: a besteira é uma faculdade do próprio pensamento quando este se torna domesticado pelo poder.
O erro e a besteira ganham seu sentido mais destrutivo quando o jogo do pensamento deixa de ser especulativo e passa a ser radiofônico. O modelo radiofônico representa a massificação do discurso. Nele, o que importa não é a criação de novos conceitos, mas a reprodução mecânica de slogans e o alcance da transmissão de verdades dadas.
As redes sociais contemporâneas mimetizam e elevam esse modelo radiofônico ao seu ápice tecnológico. Plataformas como X, TikTok e Instagram funcionam como imensos megafones algorítmicos. São engrenagens projetadas para recompensar o ruído em detrimento do silêncio especulativo.
O feed substituiu a sintonia do rádio, mas a lógica permanece a mesma: uma torrente ininterrupta de opiniões instantâneas, polarização cega e “exorcismos” virtuais disfarçados de cancelamento. Nas redes, a besteira deleuziana é monetizada. O pensamento é esvaziado de sua potência diferencial para se transformar em um espetáculo de curtidas e compartilhamentos. Resta o eco ensurdecedor de um dogmatismo digital que exorciza a inteligência para salvar as aparências do engajamento.
Contra esse massacre radiofônico, Diferença e Repetição não propõe o retorno a um debate bem-comportado, mas uma estratégia de resistência ativa. Para Deleuze, resistir à besteira dominante exige sabotar o próprio tabuleiro onde os falsos problemas são postos.
Se as redes e o dogmatismo político nos obrigam a escolher entre o sim e o não de questões idiotizantes, o ato de revolta intelectual consiste em recusar o debate e passar à criação. Pensar, no sentido radical da palavra, torna-se um ato de guerrilha. Uma recusa em sintonizar a rádio do “Mesmo” para forçar o pensamento a violentar as próprias certezas. Só a criação de novos conceitos é capaz de rachar o bloco de concreto da imbecilidade coletiva.

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