Entre a concentração de poder e a sucessão familiar, o bolsonarismo pode estar desenhando uma nova estrutura política no Brasil.

O resultado das eleições de 2026 colocou o Brasil diante de uma questão que vai muito além da disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Pela primeira vez desde a redemocratização, uma família política chega a uma eleição nacional com uma combinação particularmente ampla de posições institucionais: dois integrantes eleitos para o Senado, dois para a Câmara dos Deputados e um candidato da própria família no segundo turno da eleição presidencial.
Michelle Bolsonaro foi eleita senadora pelo Distrito Federal. Carlos Bolsonaro, senador por Santa Catarina. Jair Renan Bolsonaro, deputado federal por Santa Catarina. Renato Bolsonaro, deputado federal por São Paulo. Flávio Bolsonaro, por sua vez, terminou o primeiro turno à frente de Lula e disputará a Presidência no segundo turno.
O fato objetivo é esse. A interpretação começa agora.
A pergunta que se impõe é se estamos diante apenas do fortalecimento de uma família política dentro das regras democráticas ou se existe um projeto mais amplo de concentração de poder capaz de produzir, ao longo do tempo, uma estrutura de natureza dinástica.
E aqui é necessário separar dois conceitos. Dinastia política não é sinônimo de autocracia. Uma dinastia ocorre quando membros de uma mesma família ocupam sucessivamente posições de poder. Isso pode acontecer em uma democracia, por meio de eleições competitivas. Autocracia, por outro lado, está relacionada à concentração do poder e ao enfraquecimento dos mecanismos institucionais de controle.
A preocupação institucional surge quando esses dois fenômenos começam a se aproximar. O que torna o cenário de 2026 especialmente relevante é que a eventual vitória de Flávio Bolsonaro não significaria apenas a chegada de mais um presidente de direita ao Palácio do Planalto. Significaria a chegada à Presidência de um integrante de uma família que acaba de ampliar sua presença no Congresso e que já possui uma estrutura política nacional.
E essa estrutura pode alcançar também o Ministério das Relações Exteriores.
Eduardo Bolsonaro vem sendo apontado publicamente como possível ocupante do Itamaraty em um eventual governo do irmão. Em vídeo publicado antes do primeiro turno, Eduardo chegou a se apresentar como potencial ministro das Relações Exteriores e falou em mudanças profundas na política externa brasileira, incluindo a transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém e a entrada do Brasil no chamado Escudo das Américas. A Folha também registrou que Eduardo é cotado para posições de grande importância em um eventual governo de Flávio.
Não seria apenas uma questão de nepotismo ou de escolha familiar. O Itamaraty é uma instituição de Estado, com carreira própria, tradição diplomática e uma política externa construída ao longo de décadas. A eventual nomeação de um irmão do presidente para comandar a diplomacia brasileira, portanto, teria significado político e institucional muito maior do que a simples escolha de um ministro.
E o problema fica ainda mais complexo quando se olha para o Supremo Tribunal Federal.
Flávio Bolsonaro já declarou publicamente que pretende indicar quatro ministros do STF caso seja eleito. Essas quatro vagas correspondem à cadeira aberta com a aposentadoria de Luís Roberto Barroso e às aposentadorias compulsórias previstas para Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes ao longo do próximo mandato presidencial.
Mas Flávio foi além.
Em setembro, afirmou que poderia indicar cinco ministros, considerando a possibilidade de Alexandre de Moraes deixar a Corte, e posteriormente chegou a mencionar a possibilidade de seis indicações, incluindo Flávio Dino.
É aqui que a discussão sobre concentração de poder ganha outra dimensão.
Jair Bolsonaro já indicou dois ministros ao STF: Kassio Nunes Marques e André Mendonça. Se Flávio efetivamente fizer quatro novas indicações durante um eventual mandato, seis dos 11 integrantes da Corte terão chegado ao Supremo por indicação direta da família Bolsonaro.
Isso, por si só, não significaria controle do Supremo. Ministros do STF possuem mandato constitucionalmente independente, e a indicação presidencial precisa passar pela aprovação do Senado.
Mas o Senado de 2027 será decisivo.
Levantamento publicado pela Folha após a eleição aponta pelo menos 49 senadores favoráveis a processos de impeachment de ministros do STF, embora o número necessário para a abertura de um processo seja de 54 votos.
A diferença entre 49 e 54 não é um detalhe. Ela mostra que o cenário não pode ser descrito simplesmente como “o Senado está sob controle absoluto do bolsonarismo”. Não está. Existem negociações, partidos de centro, interesses regionais e diferentes correntes dentro da própria direita.
Mas existe, objetivamente, uma bancada suficientemente numerosa para transformar a relação entre Congresso e Supremo em uma das principais disputas institucionais do próximo período.
E há um elemento adicional: a eventual abertura de processos de impeachment poderia alterar o número de vagas disponíveis no Supremo.
Flávio Bolsonaro já associou publicamente a possibilidade de novas indicações à saída de ministros que, segundo ele, não deveriam permanecer na Corte. Portanto, o cenário máximo aventado pelo próprio candidato seria de até seis indicações durante o período de seu governo — quatro decorrentes de aposentadorias e outras em decorrência de eventual saída de ministros.
Isso precisa ser tratado como cenário político, não como fato consumado.
A mesma cautela deve ser aplicada a Jair Bolsonaro.
O ex-presidente foi condenado pelo STF a 27 anos e três meses de prisão pelos crimes relacionados à trama golpista. A defesa apresentou revisão criminal contra a condenação, e decisões posteriores mantiveram Bolsonaro em regime de prisão domiciliar humanitária.
Portanto, não é possível afirmar jornalisticamente que Jair Bolsonaro “será solto” ou que isso tenha alta probabilidade sem uma decisão judicial que sustente essa conclusão.
Mas é perfeitamente legítimo analisar o cenário político de uma eventual libertação.
Porque, se Jair Bolsonaro voltar a ter liberdade política plena e seu filho estiver na Presidência da República, sua influência sobre o governo poderia voltar a ser exercida diretamente, ainda que sem ocupar formalmente um cargo.
Poderia participar da articulação política, influenciar nomeações, orientar a base parlamentar e atuar como referência estratégica do grupo que construiu sua trajetória eleitoral desde 2018.
Nesse cenário hipotético, a família teria algo que poucas famílias políticas brasileiras alcançaram simultaneamente: o pai como fundador e principal referência política; um filho na Presidência; outro filho no Senado; outro filho na Câmara; a esposa também no Senado; um irmão na Câmara; e um terceiro filho, Eduardo, potencialmente ocupando uma posição estratégica no Executivo.
É nesse ponto que a palavra dinastia deixa de ser apenas uma metáfora.
Uma liderança política pode sobreviver à derrota eleitoral porque possui um partido. Uma dinastia política procura sobreviver também à ausência do líder porque distribui seus herdeiros em diferentes posições de poder.
O fenômeno Bolsonaro já apresenta alguns desses elementos.
O sobrenome se transformou em uma marca eleitoral nacional. Os membros da família não dependem exclusivamente de uma única circunscrição. Michelle foi eleita no Distrito Federal; Carlos e Jair Renan, em Santa Catarina; Renato, em São Paulo; Flávio disputa a Presidência; e Eduardo permanece como uma das principais referências do grupo na política externa.
Há, portanto, uma espécie de descentralização territorial da família.
O fundador pode estar juridicamente impedido de disputar eleições. Mas o grupo familiar continua eleitoralmente ativo.
Essa é justamente uma das características que diferenciam uma estrutura política familiar de uma candidatura individual.
A questão democrática, entretanto, não está no fato de uma família disputar eleições. Famílias políticas existem em praticamente todas as democracias. O problema começa quando a sucessão familiar passa a se combinar com a concentração institucional.
Imagine-se, portanto, o cenário máximo: Flávio Bolsonaro eleito presidente; quatro integrantes da família ocupando cadeiras no Congresso; Eduardo Bolsonaro em uma posição estratégica no Executivo; Jair Bolsonaro recuperando liberdade e capacidade de articulação política; uma maioria conservadora no Senado capaz de pressionar o STF; e a possibilidade de o presidente indicar quatro ministros da Corte, podendo chegar a seis se ocorrerem afastamentos ou outras vacâncias.
Nenhum desses fatos, isoladamente, caracteriza uma autocracia. Mas a combinação deles produziria uma concentração de poder político que justificaria uma vigilância institucional extraordinária. É justamente aí que entram as instituições.
O Congresso teria de preservar sua autonomia. O STF precisaria exercer suas competências sem transformar decisões judiciais em instrumento de disputa partidária. O Ministério Público deveria manter independência. A imprensa precisaria continuar livre para investigar e criticar o governo. A diplomacia profissional deveria preservar seus mecanismos institucionais. E as Forças Armadas, como determina a Constituição, deveriam permanecer submetidas ao poder civil e à ordem constitucional.
O teste de uma democracia não acontece quando um grupo político perde. Acontece também quando um grupo político vence.
É relativamente fácil defender instituições quando elas protegem os próprios interesses. O verdadeiro teste ocorre quando as instituições impõem limites ao grupo que está no poder. Por isso, a questão que se apresenta depois do primeiro turno de 2026 não deveria ser simplesmente se o bolsonarismo vai vencer ou perder.
A questão é outra:
se vencer, aceitará os limites institucionais de uma democracia constitucional? E, se perder, aceitará novamente a alternância de poder? Essas duas perguntas são mais importantes do que qualquer disputa eleitoral específica.
O risco de uma autocracia não nasce simplesmente da vitória de uma ideologia, de um partido ou de uma família. Ele aparece quando a vitória eleitoral começa a ser utilizada para reduzir os mecanismos que podem limitar o próprio poder.
É por isso que a discussão sobre a família Bolsonaro precisa ser feita em dois planos.
No primeiro, existe uma realidade eleitoral: quatro integrantes da família foram eleitos e Flávio chegou ao segundo turno.
No segundo, existe uma possibilidade política ainda em construção: transformar essa presença eleitoral em uma estrutura permanente de poder, com influência simultânea sobre o Executivo, o Legislativo, a política externa e a composição do Supremo Tribunal Federal.
Se esse processo avançar, o Brasil não estará necessariamente diante de uma autocracia.
Mas poderá estar diante de algo politicamente mais duradouro: uma dinastia eleitoral com capacidade de influenciar diferentes centros de poder do Estado.
E essa talvez seja a pergunta mais importante que emerge das eleições de 2026:
estamos diante da volta de um presidente Bolsonaro — ou do nascimento de uma estrutura política Bolsonaro capaz de sobreviver ao próprio Jair Bolsonaro?
A resposta não será dada apenas no segundo turno.
Será dada nos próximos anos, pela maneira como o grupo exercerá o poder, pela reação das instituições e, sobretudo, pela capacidade da democracia brasileira de continuar impondo limites a qualquer família, partido ou liderança que alcance o governo da República.

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