Pesquisas mostram distância estreita entre os dois candidatos e colocam avaliação do governo, rejeição, economia e capacidade de ampliar as bases eleitorais no centro da disputa

A reta final da eleição presidencial de 2026 coloca Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) diante de uma disputa marcada por diferenças estreitas nas pesquisas e por desafios de natureza distinta. A pouco mais de uma semana do primeiro turno, os levantamentos divulgados em setembro não apresentam um cenário consolidado e mostram que a competição passa, além das intenções de voto, pela capacidade de cada candidatura de mobilizar sua base, reduzir resistências e alcançar eleitores que não se identificam integralmente com nenhum dos dois principais campos políticos.
O Datafolha realizado entre 15 e 17 de setembro registrou Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 36% de Flávio Bolsonaro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, o que coloca os dois candidatos em situação de empate técnico. Na simulação de segundo turno, Lula aparece com 46% e Flávio com 44%, também dentro da margem de erro. O mesmo levantamento mostra outro dado relevante: os dois candidatos apresentam 47% de rejeição, o maior índice entre os presidenciáveis pesquisados.
Os números ajudam a dimensionar o ambiente em que as campanhas chegam à última etapa da eleição. Não se trata apenas de conquistar novos votos. Em uma disputa marcada por elevada polarização, a rejeição também assume importância, já que parte do eleitorado pode tomar sua decisão não apenas pela identificação com determinado candidato, mas também pela intenção de impedir a vitória do adversário.
Para Lula, a condição de candidato à reeleição coloca a avaliação do governo no centro da campanha. O presidente tem a possibilidade de apresentar resultados de sua administração como argumento para a continuidade, sobretudo em áreas como emprego, atividade econômica e inflação. Os indicadores oficiais mais recentes do IBGE mostram uma taxa de desocupação de 5,4% no segundo trimestre de 2026, crescimento acumulado do PIB de 1,9% em quatro trimestres e inflação de 4,22% acumulada em 12 meses até agosto.
Esses números, entretanto, não produzem necessariamente uma única interpretação política. O desempenho da economia é percebido pelo eleitor a partir de sua experiência cotidiana. A melhora do mercado de trabalho pode ser um indicador relevante para quem conseguiu uma ocupação ou percebeu aumento das oportunidades, enquanto o custo de vida permanece como referência para famílias que enfrentam dificuldades para equilibrar o orçamento. A condição de candidato à reeleição, portanto, apresenta uma característica particular: os resultados positivos podem ser utilizados para defender a continuidade, mas os problemas que permanecem também são atribuídos diretamente ao governo que busca permanecer no poder.
Esse é um dos elementos que diferenciam a posição de Lula da de seu principal adversário. O presidente não disputa apenas a apresentação de um projeto para o futuro. Ele precisa também prestar contas sobre o presente. Economia, saúde, educação, segurança pública, contas públicas e relações internacionais fazem parte da avaliação de sua administração e, consequentemente, da discussão eleitoral.
Lula também chega à reta final carregando uma trajetória política construída ao longo de décadas. Já ocupou a Presidência da República por dois mandatos e exerce atualmente um terceiro. O PT possui ainda uma estrutura partidária consolidada e uma presença eleitoral construída em diferentes regiões do país. Essa experiência representa um elemento importante de sua candidatura, mas também reforça a responsabilidade pela avaliação do governo atual..
Do outro lado, Flávio Bolsonaro chega à disputa identificado com um campo político que possui uma base eleitoral própria e fortemente mobilizada. O sobrenome Bolsonaro constitui um dos principais elementos de identificação de sua candidatura, ao mesmo tempo em que sua trajetória parlamentar lhe confere uma dimensão institucional própria. Flávio é senador pelo Rio de Janeiro desde 2019 e exerceu anteriormente quatro mandatos como deputado estadual.
A associação com Jair Bolsonaro, porém, produz efeitos diferentes conforme o perfil do eleitor. Para aqueles que se identificam com o bolsonarismo, a ligação familiar e política pode representar continuidade. Para eleitores que rejeitam esse campo político, a mesma associação pode funcionar como fator de resistência. A candidatura, dessa forma, carrega simultaneamente a força de uma identidade política consolidada e o peso da polarização que acompanha essa identidade.
É nesse ponto que o eleitor situado fora das duas principais bases ganha importância. No Datafolha, entre os entrevistados que não se identificam nem com o petismo nem com o bolsonarismo, Flávio Bolsonaro aparece com 39% contra 33% de Lula na simulação de segundo turno. O levantamento também indica que 46% desse grupo ainda poderiam mudar de voto.
Esse segmento do eleitorado ajuda a compreender por que a reta final pode ser marcada por uma disputa intensa pela comunicação. As campanhas precisam falar com suas bases tradicionais, mas também encontrar argumentos capazes de alcançar eleitores que não estão presos a uma identidade partidária ou ideológica.
A economia deverá permanecer entre os principais temas dessa disputa. Lula poderá explorar os indicadores de emprego, crescimento e inflação para defender a continuidade de seu governo. A oposição, por sua vez, tende a concentrar sua argumentação sobre problemas percebidos no cotidiano, como custo de vida, contas públicas e outras questões econômicas. O resultado desse confronto dependerá não apenas dos números apresentados pelas campanhas, mas também da maneira como esses dados são percebidos pelos diferentes grupos sociais.
A segurança pública constitui outra frente importante. Flávio Bolsonaro possui uma trajetória política fortemente associada ao tema, enquanto Lula precisa disputar esse espaço apresentando políticas capazes de responder às preocupações do eleitorado. Nesse debate, questões como financiamento, integração entre União, estados e municípios, atuação das forças policiais e mecanismos de avaliação dos resultados passam a ter importância para além do discurso eleitoral.
A diversidade do eleitorado brasileiro acrescenta outra camada à disputa. Os levantamentos mostram diferenças significativas entre regiões, faixas de renda, escolaridade, idade e grupos religiosos. No Datafolha de setembro, Lula aparece com vantagem mais ampla no Nordeste, enquanto Flávio Bolsonaro apresenta desempenho superior em determinados segmentos de renda, no Sul e entre eleitores evangélicos.
Esses recortes mostram que a eleição nacional não é uma disputa homogênea. Diferentes grupos chegam às urnas com preocupações distintas e podem responder de maneiras diferentes aos mesmos argumentos. Para uma candidatura, isso significa preservar a identificação de sua base sem limitar sua capacidade de comunicação com outros setores do eleitorado.
A pesquisa da Quaest apresentada no texto-base reforça a proximidade entre os dois candidatos: 37% para Lula e 33% para Flávio no primeiro turno e, no cenário de segundo turno, 42% para Flávio e 41% para Lula. A diferença entre os levantamentos mostra também por que pesquisas devem ser lidas como fotografias de momentos específicos, e não como antecipações do resultado das urnas.
Na última etapa da campanha, conforme analisamos recentemente, Lula enfrenta o desafio de transformar a condição de presidente e os resultados de seu governo em argumentos suficientes para a continuidade, ao mesmo tempo em que precisa lidar com a rejeição e com a cobrança sobre problemas ainda não resolvidos. Flávio Bolsonaro, por sua vez, precisa preservar a força do eleitorado identificado com o bolsonarismo e ampliar sua capacidade de diálogo para além desse núcleo.
Live realizada pelo ágora da Geopolítica em 27/09/26
A questão central da reta final, portanto, não está apenas nos pontos que separam os dois candidatos em uma determinada pesquisa. Está na capacidade de cada campanha de ampliar seu eleitorado sem perder a identidade que sustenta sua base. Os próximos dias deverão ser marcados por debates, propaganda eleitoral, novos movimentos de campanha e eventuais alterações no comportamento do eleitorado.
Para o jornalismo, o desafio é acompanhar esse processo sem transformar pesquisa em prognóstico e sem confundir fato com interpretação. Os números disponíveis mostram uma disputa competitiva, mas não permitem antecipar o resultado. A eleição será decidida pelos votos depositados nas urnas.
Até lá, o que permanece em disputa é a capacidade de Lula e Flávio Bolsonaro de convencer um eleitorado dividido, mobilizado e, em parcela significativa, ainda resistente a ambos.
Excelente texto. Só acrescento que atacou a instituição como um todo, visto que alvitou os cânones e procedimentos num atropelo…
REDE GLOBO golpista , lesa pátria, criminosa de TELEVISÃO !
Muito bom o seu texto e contexto. É realmente uma obrigação de todos checar as informações para nao caírem nas…
Olá Marco Aurélio, agradeço pelo feedback. Aproveito para convidá-lo a nos acompanhar no canal @agoradageopolítica no Youtube!
Oi Baracy, concordo plenamente!

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