O Irã costuma ser apresentado no Ocidente como ameaça, exceção ou problema. Mas essa leitura ignora um elemento central: a geografia e a história de uma civilização moldada por cercos, invasões e estratégias de sobrevivência.
Durante esta semana vimos reacender o conflito no Oriente Médio o qual teve como protagonistas os Estados Unidos e o Irã e a dificuldade do ocidente em compreender o Irã.
Esta dificuldade persistente do Ocidente em compreender o Irã não se explica apenas por divergências ideológicas ou religiosas. Ela está ligada, sobretudo, a uma leitura incompleta de sua formação geográfica, histórica e estratégica. Localizado em uma das regiões mais sensíveis do sistema internacional, o Irã construiu, ao longo dos séculos, uma racionalidade geopolítica própria, moldada por sua posição territorial, por sucessivas intervenções externas e por uma memória histórica marcada pela defesa da soberania.
Do ponto de vista geográfico, o Irã ocupa uma posição central entre o Oriente Médio árabe, a Ásia Central, o Sul da Ásia e o Cáucaso. Essa localização o transformou historicamente em corredor estratégico e zona de contato entre grandes áreas civilizacionais. Em análises recorrentes sobre segurança energética e rotas comerciais devido a importância estrutural do País entorno do Golfo Pérsico e do Estreito de Hormuz.
Essa condição espacial antecede o Islã. A antiga Pérsia estruturou-se como um império continental assentado sobre planaltos elevados, desertos extensos e cadeias montanhosas que funcionaram tanto como barreiras defensivas quanto como eixos de circulação. Essa geografia favoreceu uma tradição estatal centralizada e uma cultura política fortemente territorializada.
A adoção do xiismo como religião oficial, no século XVI, durante a dinastia safávida, também deve ser compreendida como uma escolha estratégica. Cercado por impérios sunitas rivais, especialmente o Otomano, o Irã utilizou a religião como marcador identitário e instrumento de diferenciação territorial. Essa decisão ajudou a consolidar fronteiras políticas e simbólicas que moldaram uma cultura estratégica defensiva.
No século XX, essa lógica territorial foi intensificada pelas duas Guerras Mundiais. Apesar de declarar neutralidade, o Irã foi ocupado por potências estrangeiras devido à sua posição estratégica entre Europa, Ásia e União Soviética, além de sua relevância logística e energética. Reportagens históricas do The Guardian e da Reuters mostram que o território iraniano foi tratado como espaço de passagem e controle, reforçando uma percepção duradoura de vulnerabilidade geopolítica.
O golpe de 1953, que derrubou o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh após a nacionalização do petróleo, consolidou essa percepção. O episódio, amplamente reconhecido pela imprensa internacional após a divulgação de documentos oficiais, reforçou no imaginário iraniano a ideia de que soberania territorial e controle de recursos estratégicos são inseparáveis. Já a Revolução Islâmica de 1979 representou, além de uma ruptura política e religiosa, uma tentativa de reorganizar a posição do Irã no sistema internacional. Desde então, o país passou a adotar uma estratégia de ampliação de sua influência regional como forma de compensar sua vulnerabilidade territorial direta.
Essa lógica ajuda a explicar o apoio iraniano a aliados regionais e a valorização do controle indireto de rotas e áreas estratégicas no Oriente Médio. Ainda assim, no discurso político ocidental, essas ações costumam ser interpretadas apenas como expansionismo ideológico, sem levar em conta a memória histórica de cercos, invasões e isolamento que molda a atuação iraniana.
A intensificação das sanções econômicas, recentemente noticiada pela imprensa, reforçou essa percepção de cerco, ao afetar diretamente a população civil. Paralelamente, contribuiu para a construção de uma imagem homogênea e hostil do Irã, apagando sua diversidade social e territorial — um ponto frequentemente lembrado em reportagens especiais da Al Jazeera English: https://www.aljazeera.com
O Ocidente não entende o Irã porque, em grande medida, ignora sua geografia histórica. Trata-se de um Estado moldado pela necessidade permanente de defender seu território, controlar recursos estratégicos e sobreviver em um ambiente regional instável. Sem essa compreensão espacial do poder, a relação entre Irã e Ocidente tende a permanecer marcada por leituras superficiais, erros de cálculo e tensões recorrentes no sistema internacional.

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